Sobre o eterno retorno das “classes perigosas”
Aproveito este período mais “morno” do ano para deixar aqui algumas notas sobre um assunto “quente”, acerca do qual tive oportunidade de escrever na última edição do JUP – Jornal Universitário do Porto. Aproveito ainda para desejar a todos os colaboradores e visitantes do Quinta Cidade um 2009 cheio de realizações pessoais e profissionais, em cidades mais democráticas, justas e belas.
João Queirós
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Sobre o eterno retorno das “classes perigosas”
No Verão de 2000, as férias dos portugueses eram momentaneamente interrompidas por uma insólita notícia: uma onda gigante aproximava-se rapidamente do Algarve, ameaçando a tranquilidade dos turistas e, mais do que isso, prometendo arrasar tudo à sua chegada. Assustados, os veraneantes correram para longe das praias. Em cima do acontecimento, como sempre, as televisões acorreram à costa algarvia, lançando directos e especulando em torno dos possíveis efeitos da devastadora onda gigante que aí vinha. Surpreendidos, os portugueses procuravam descortinar na linha do horizonte ampliada pelas câmaras indícios da aproximação do tsunami. Havia ali qualquer coisa, de facto. Uma espécie de halo acima da linha do mar. Seria a onda gigante erguendo-se em direcção à costa?
Poucas horas depois, porém, o suspense era desfeito. Afinal, a onda gigante não passava de ilusão de óptica. Um fenómeno atmosférico qualquer, semelhante a uma daquelas miragens que, no deserto, oferecem momentânea esperança a quem por lá vagueia, perdido e sedento. O mar algarvio continuava inexoravelmente, irremediavelmente, flat.
Vem isto a propósito da “onda de criminalidade violenta” que este Verão “assolou” o país. Dir-me-ão que a comparação é irresponsável, absurda até. Admito que contém algo de provocatório, mas não me parece que seja assim tão descabida. Como defendo mais à frente, a metáfora da “onda” até pode ser útil para pensar estas coisas.
Antes, porém, de avançar na discussão desta ideia, não resisto a recordar uma outra “onda gigante” que mais recentemente “varreu” a costa portuguesa. Neste caso, a “onda” apareceu sub-reptícia, sem aviso, surpreendendo tudo e todos. O problema não foi tanto a chegada da “onda”, mas o seu refluxo e o consequente efeito de “arrastão” que gerou. Os acontecimentos replicaram os registados na costa algarvia cinco anos antes: os veraneantes correram a proteger-se, as televisões correram a cobrir o acontecimento, com multiplicação de directos, comentários e “análises”. Os portugueses, esses, voltaram a perscrutar a “linha do horizonte”. Desta vez, contudo, o olhar não se fixava no mar longínquo; passara a focar-se na periferia – igualmente longínqua – da cidade de Lisboa, esse lugar estranho, desconhecido, como desconhecidos são, para as crianças, os lugares onde as ondas nascem.
Ao que parece, também neste caso não houve “onda”. O “arrastão”, como a pescada, antes de o ser, já o era. Houve quem dissesse que o “arrastão” da praia de Carcavelos só aconteceu nas televisões – e, bem assim, na cabeça de comentadores e de alguns políticos mais apressados ou com inclinação para a demagogia. Seria novamente ilusão de óptica? Talvez. O problema começa quando a ilusão se torna real, por se tornarem reais as consequências que aporta. E uma das consequências reais desta “onda” ilusória, desta “onda” que nunca o terá sido, foi o regresso ao debate público, à agenda mediática e política, do sempiterno tema das “classes laboriosas enquanto classes perigosas”. O alarme instalou-se: quem eram aqueles jovens, quais “bárbaros”, arrasando tudo à sua passagem? Como podia a segurança dos veraneantes ser posta em causa daquela forma, em pleno período estival, numa praia repleta, ali às portas de Lisboa? De que bairro social vinha aquele gang (tinha de vir de um bairro social!) e o que seria preciso fazer para travar a multiplicação de fenómenos deste tipo? Afinal, o que é que se passava com o “país dos brandos costumes”, onde agora até “arrastões” havia, “como no Brasil”?
Muito se discutiu e pouco se concluiu, como habitualmente. Os meios de comunicação social escalpelizaram o fenómeno, entrevistaram “vítimas” e “marginais”, chamaram os especialistas da praxe; a polícia lá sitiou uns bairros, para assegurar o “reforço do sentimento de segurança dos portugueses”; o Governo veio dizer que estava tudo sob controlo e que os responsáveis seriam “naturalmente levados à presença da Justiça”; o discurso bafiento contra os “malandros do rendimento mínimo” aproveitou a deixa e lá repetiu os chavões do costume, perorando contra o Estado social e exigindo o fim dos “subsídios à preguiça e à criminalidade”; a imbecilidade nacionalista meteu a cabeça (rapada) de fora, explorando o sentimento de insegurança e exigindo, com arrogância xenófoba, “Portugal para os portugueses”.
Este Verão, a história repetiu-se, desta feita assumindo proporções inéditas. A “onda” regressou e, com ela, regressaram as “classes perigosas”. Não desistamos, entretanto, da metáfora da “onda”. Ela é útil porque, como vimos, simboliza a persistência deste fenómeno, que ciclicamente traz à costa os mesmos mitos, os mesmos medos, as mesmas reacções. Mas esta “onda” é sui generis. Na verdade, soa a falso, como se se ouvisse, sob o ruído do rebentamento, o barulho do mecanismo complexo que a produz, como naquelas piscinas de ondas artificiais dos parques de diversões aquáticas.
Ora, uma das peças do mecanismo gerador da força destas “ondas”, do mecanismo na origem do permanente retorno das “classes perigosas” ao debate público, é, não duvidemos, o campo dos media. Este Verão não deixou dúvidas quanto a este facto. Fosse porque os resultados da selecção portuguesa no Campeonato de Futebol desiludiram, fosse porque não houve “tragédias” (humanas ou naturais) dignas de registo, fosse porque os meios de comunicação social portugueses e os grupos económicos que os detêm atravessam um momento particularmente intenso de disputa pelo controlo das audiências, a verdade é que nunca como este ano teve a “onda” tanto força, tanto impacto.
Em resultado, pudemos ver com particular nitidez o modo como os media tratam hoje os temas relativos à “criminalidade” e à “violência”. Mistificação é uma das palavras que me vem à ideia. O que tem um sequestro num estabelecimento bancário a ver com um sofisticado assalto a uma carrinha de valores? E o que têm estes dois crimes a ver com um tiroteio num bairro de habitação social? E este com o assassinato de uma mulher pelo marido desequilibrado? E com a detenção de condutores embriagados? À partida, diríamos que são trágicas coincidências, se acontecerem ao mesmo tempo. Quando muito, manifestações de problemas sociais em agudização. Mas não. Ficámos a saber que tudo fazia parte de uma gigantesca “onda de criminalidade violenta” que “varreu” o país. E que, como tal, teria de haver tratamento integrado para o “problema”, solução que, entre nós, significa geralmente… rusgas policiais em bairros “problemáticos”. Mas isso são contas de outro rosário…
A forma a-histórica e não relacional como as coisas são contadas pelos meios de comunicação social aprofunda a confusão gerada pela simplificação abusiva de que acima dei conta. As “ondas de criminalidade violenta” não são colocadas em perspectiva, nem sincronicamente – o contexto do “caso de polícia”, a sua relação com a situação do país (do mundo até!) -, nem diacronicamente – a evolução do fenómeno ao longo do tempo e a evolução da sua relação com fenómenos conexos. Por exemplo, foi-nos sendo dito que a “criminalidade violenta” (desconhece-se o conteúdo exacto da noção) aumentou este ano 10% face a 2007. Mas depois lá ouvimos que, em 2007, havia baixado 10% face a 2006…
Alguns lá foram dizendo que o que está a crescer é o “sentimento de insegurança”, nuns casos apontando o dedo aos media, noutros casos fazendo de conta que os media nada têm a ver com o assunto. Dificilmente, porém, se poderá negar que o “problema” da “criminalidade violenta” é, em grande medida, uma construção mediática. Mediática e imediata, contribuindo para promover aquilo que alguns sociólogos chamam a “amnésia da génese” dos fenómenos. E num triplo sentido: enquanto amnésia da génese social e económica profunda destes manifestações de “violência” (a pobreza, o desemprego, a precariedade dos vínculos profissionais, a desestruturação familiar, a presença altamente lacunar do Estado); enquanto amnésia do carácter cíclico dos “pânicos morais” das classes dominantes (não é de agora: sempre que o tempo é de “crise”, as “classes laboriosas” lá estão, aparecendo como portadoras da ameaça ao mundo “tal como o conhecemos”…); enquanto amnésia, finalmente, do facto de o discurso dos media – e, consequentemente, da visão dominante do mundo que o mesmo transmite e reforça – ser precisamente a visão das classes dominantes, no que contribui para a reprodução do status quo.
[Continua.]

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